quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Wagner e a Salvador ff.

Roberto Malvezzi (Gogó)           
        Gregório de Matos dizia que a Salvador seiscentista era feita de “dois ff”(sic!): um de furtar e outro de fo....
Blasfemo, pornográfico, herético, o “Boca do Inferno” não perdoava seus inimigos pessoais, do clero ou da política. Seus poemas eram direcionados ao coração dos inimigos e não vacilava em citar o nome real de quem ele quisesse queimar em praça pública.
Acontece que ele também tinha seu calcanhar de Aquiles, era de família abastada e, muitas vezes, seus ataques eram para defender interesses pessoais e de família.
A Salvador de Wagner, quase 500 anos depois, é uma metrópole linda, que esconde atrás dos prédios das belas avenidas a pobreza das favelas e periferias. Foi ACM quem inventou a técnica de esconder a miséria atrás dos edifícios belos, assim passar uma imagem perfeita da cidade aos turistas.
A greve dos PMs da Bahia expõe a cara mais real de Salvador. Claro que ali há jogos, interesses, gente ainda ligada a ACM, mas há um problema sério de diálogo do governo baiano. Há tempos o funcionalismo público reclama da forma como o ex-sindicalista trata as corporações em greve. Professores, policiais e área de saúde têm problemas graves de relacionamento com o governador. Hoje, um professor do estado, quando pede a aposentadoria baseada em lei, tem que esperar quase dois anos para ser atendido.
Wagner sempre foi considerado um excelente negociador, antes de chegar ao poder. Quando Frei Luíz fez a greve de fome em Cabrobó, o enviado de Lula para conversar com ele foi o então ministro Wagner. Nunca nos esqueceremos que, com 11 dias sem comer, Wagner se trancou com ele na capela por mais de seis horas, até firmarem um acordo. Quando saiu do lado de fora, com um papel escrito a mão e assinado pelos dois, ele soltou a frase: que acordo?
Foi ali que a ficha caiu. Usando tática de prisioneiros de guerra, tentando vencer o adversário pela exaustão, não conseguiu dentro da capela, então rompeu o acordo ao sair na porta.
Quando chega a “festa da carne” em Salvador – literalmente - milhares de turistas prontos para chegar à cidade, a greve dos PMs se transformou num problema econômico, além da segurança. Agora comerciantes, empresários, artistas, pressionam o governo para acabar com a greve. Mas o estrago está estabelecido. No poder Wagner não é um bom negociador.
Pelos interesses em cena, esse jogo não vai acabar um a um.

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